sexta-feira, 11 de julho de 2008

ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE

Memórias de uma vendedora de shopping

Capítulo 21 - Palestra (des)motivacional

Hoje tivemos que ir para o [outro shopping], participar de uma reunião, não disseram exatamente de quê.
Encontrei a [vendedora xis] no hall do elevador, fomos juntas para o décimo sexto andar.
Era uma palestra motivacional. É foda ser obrigado a ficar ouvindo um babaca falando sobre vestir a camisa da empresa quando se trabalha em uma loja. Essa merda de empresa jamais veste a minha camisa. E cobra pela dela - só tenho 50% de desconto nas roupas que sou obrigada a comprar para usar enquanto trabalho.
O discurso de hoje incluia pérolas como "você tem que investir na sua imagem. Como vai vender uma blusinha fashion pra cliente se vpcê está de regatinha básica? Precisa ter as mais elaboradas também!". É a loja que paga a merda da blusinha?
Outra: não é legal pegar as coisas e sair no minuto exato em que acaba seu horário se você perceber que a loja está com movimento e seus colegas precisando de ajuda. Tem que ter um sentimento de equipe, uma solidariedade.
Quantas vezes a loja teve uma postura solidária quando precisei? Quando fiquei de exame na faculdade não pude sair mais cedo pra estudar. Tive cólica num domingo e saí mais cedo. Contaram como folga.
E hoje, então? Duas horas nessa palestra ridícula sobre métodos de venda e eu ainda tenho que fazer meu horário normal na loja. Duas preciosas horas da minha vida jogadas fora.
Eu só não mando a tiazinha do RH à merda porque sei que esse é só o papel que ela tem que cumprir. O trabalho dela é falar bosta pra gente. O nosso é vender calça skinny pra mulher gorda.
No fim do mês, todo mundo ganha o seu salário e paga as contas e pronto.

(Originalmente postado em 22/nov/07)

ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE

Memórias de uma vendedora de shopping

Capítulo 12 - Ainda sem título


Fui até o canto mais escuro do estoque, apoiei a cabeça sobre a mão, fechei os olhos.
"Força!". Tanta loja naquele shopping e a mina dele tinha que querer vir comprar aqui?
Rolou aquele encontro tenso de olhares quando meu ex entrou na loja. Não nos cumprimentamos. O [vendedor] atendeu os dois e eles foram para o outro canto da loja.
Eu estava atendendo um outro cara. Continuei sorrindo, sendo simpática, mostrando roupas.
Por dentro, morrendo de vontade de sair correndo dali.
Não nos víamos há pelo menos mais de um ano, desde que terminamos. Quer dizer, vamos ser sinceros. Ele que terminou comigo, num dos útlimos dias de aula. Na formatura, já estava com outra.
Nunca mais conversamos. Quando a namorada dele entrou no provador, ele veio em minha direção. Não, eu não estava preparada. Ia acabar amolecendo, chorando ou perdendo a compostura no meio do expediente. Ele não merecia. Ainda mais porque era aquela piranha que ia sair com ele dali.
Falei pro meu cliente que ia buscar uma camiseta legal pra combinar e corri pro estoque.
Até que enrolei bastante, mas quando saí, dei de cara com ele. Todo sem graça, me pediu pra avisar o [vendedor], que tinha entrado no estoque, para trazer uma calça tamanho 36 pra ela - a 38 ficou sobrando na cintura. Eu sou manequim 40. Não que eu me ache gorda, mas é sempre ruim saber que você foi trocada por alguém mais magra.
A tortura durou mais uns 40 minutos. Ela, que parecia não saber quem eu era (ou tinha sido), ficou pedindo a minha opinião. Fiz o que pude pra ela decidir logo por um modelo (o mais caro) e sair logo dali.

Dois dias depois, o [ex] voltou aqui. Dessa vez, me chamou pelo nome. Pedi uma pausa pra fumar e fui conversar com ele.
"Desde quando você fuma?".
Eu sabia que ele detestava, então fiz questão de acender um cigarro - e até de fumar.
"O que você quer?"
"Foi estranho te reencontrar depois de tanto tempo... Você tá diferente..". Fez aquela carinha de bom-moço do início do namoro.
"Pensei que a gente podia sair um dia desses, comer uma pizza, conversar melhor". Tentou passar a mão no meu cabelo.
Cachorro.
"Qual o nome dela?"
"[nome]. A gente não tá..."
"Ela sabe que você tá aqui?"
"Não, quer dizer, eu tava por aqui e daí resolvi passar na loja.."
Desencostei do murinho, apaguei o cigarro.
"Que foi? Peraí...".
"Se você quer foder com ela como fez comigo, o problema é seu. Só não me envolva nisso".
"[protagonista]"
Com o coração disparado, surpresa pela minha própria frieza, saí andando, as fortes pisadas do salto no mármore do chão me dando orgulho de mim mesma.

(Originalmente postado em 20/nov/07)

ENTRE A VITRINE E O ESTOQUE

Memórias de uma vendedora de shopping

Capítulo 5 - Não-fumantes que fumam

Odeio fumar. Demais. Não vejo graça nenhuma ficar no meio daquela fumaça, infestando meu cabelo, minhas roupas. Sinto como se estivesse enfiando um escapamento na boca.
Eu não fumava antes da loja. Aí percebi que os fumantes sempre tiram um intervalo de uns quinze minutos no meio do dia pra acender um cigarro. Tentei sair pra "tomar um ar fresco" outro dia e tomei um come. A loja tava cheia, aquela playboyzada olhando, olhando sem comprar. Ar fresco não é vício, não merece intervalo, "se não tem o que fazer, vai baixar estoque".
E os colegas espairecendo à vontade no meio da fumaça. Então foda-se. Decidi que, pra eles, eu fumo. Acabei de entrar nessa loja, esse papo ainda cola; além do que, nunca mencionei nada a respeito antes. A [colega-amiga], que fuma de verdade, costuma sair comigo pra me dar cobertura.
Tenho três maços na bolsa. Um eu comprei, o resto peguei usado dela. Um do câncer, com aquele cara da perna amputada, o da impotência, que tem um cigarro com cinzas caídas sugerindo uma broxada, e o da menina asmática. Esse último me incomoda um pouco, mas é melhor que o dos ratos. Fico dividindo o conteúdo entre eles, levo o mesmo durante uns dias.
De vez em quando, dá merda. Outro dia, encontrei o [gerente] numa dessas escapadas. Eu tava sem a [colega-amiga], tive só tempo de acender um cigarro, dar um trago muito a contragosto e ele chegou.
"Opa. Isqueiro?". Emprestei o meu para ele acender o dele. Ele começou a fumar normalmente e eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer. Dei mais dois tragos e deixei cair, fingindo um acidente. "Merda". Ele ofereceu outro. "Não, deixa quieto. Já era o segundo... Melhor ir com calma, to querendo desapegar. Vou dar um pulo no banheiro e depois volto pra loja".
Lavei minha boca, as mãos fedidas de tabaco, o rosto cansado. Olhei-me no espelho e mentalizei: "coragem, nega./ Só faltam R$ 870 pra bater a meta de hoje". Eram 17h40 ainda.

(Originalmente postado em 08/nov/07)

HAPPY ANNIVERSARY

Hoje se completam quinze anos exatos desde o dia em que eu e minha família nos mudamos para o apê onde vivemos.
Eu tinha sete anos e era Halloween; fui até à festinha que o condomínio fez para as crianças, com uma mini-vassourinha.
Lembro o quão assustadora era a visão do meu quarto no começo do dia, cheio de brinquedos e roupas encaixotados. Um desespero. Naquele dia, minha mãe disse para minha irmã e eu irmos brincar enquanto ela arrumava a casa.
Quando voltei, sabe Deus quanto tempo depois, meu novo cantinho estava impecável, com colchas verdes de verão esticadas sobre as camas e a escrivaninha toda organizada. Adorei. Foi um marco de passagem.
Nesses sessenta e cinco metros quadrados, deixei de ser criança dentro de alguns anos, meu corpo mudou, minha mente também. Nunca mais as coisas se resolveram tão facilmente quanto a bagunça do meu quarto. Por outro lado, eu aprendi a não me apavorar tanto diante das badernas que a vida me aprontou.
Agora, debutamos, os dois. Happy anniversary.

(Originalmente postado em 31/out/07)

SINFÔNICA

A mesa vibra a cada acorde. São, na verdade, os olhos que vibram, no ritmo da emoção que os sons lhe produzem.
Sente um arrepio nascer e morrer na lateral da cintura. Ah, que diferença não fazem os bons fones... Que saudade dessa sensação profunda de ouvir música com a derme.

(Originalmente postado em 11/out/07)

PENSAMENTOS SOLTOS, TRADUZIDOS EM PALAVRAS

O amor deixa marcas.
Sejam das unhas nas costas, seja da lágrimas nos papéis.
Deviam fazer uma exposição artística sobre o tema.
Já pensou? A Bienal do Ibirapuera cheia de marcas de amor, tristes ou felizes, das mais clichês às mais inusitadas. Formariam-se filas enormes do lado de fora, a marquise cheia de pseudo-cults comentado "estou ansiosa pela obra da mãe judia que perdeu o filho num massacre neo-nazista". Poderia também haver uma seção só para a falta de amor. Como um cartão repleto de confissôes românticas sepultado em um envelope fechado, com carimbo envelhecido do correio.

(Originalmente postado em 11/out/07)

DELICATESSEN

Na sala do presbítero, espelho, caixa de maquiagem, nécessaire, biombo, ferro de passar, lenços, rádio: o ambiente era dela. Pediu à mãe, à cunhada e às primas que lhe deixassem a sós por um segundo, antes de se dirigir à porta da igreja.
Fitou seu reflexo com gosto. O vestido branco, de tecido grosso, caimento discreto e corte delicado, cobria toda a sensualidade preparada da moça. Meia fina presa à lingerie de renda por uma cinta-liga. O corpo jovem da noiva estava enfeitado provocativamente e estrategicamente embrulhado na branca discrição do tafetá, era uma sobremesa em vitrine de delicatessen. A harmonia era a materialização de uma metafóra: a capa da inocência estava pronta para ser retirada e revelar o desejo cultivado e preservado para um único homem. Safra 1985.

To be continued.

(Originalmente postado em 19/set/07)